Sobrevivência no Agro: Especialistas alertam para cenário de “tempestade perfeita” e destacam a urgência de profissionalizar a gestão
O agronegócio enfrenta um de seus momentos mais desafiadores, descrito por especialistas como uma verdadeira “tempestade perfeita” devido à combinação de altos custos, margens espremidas, dificuldades no crédito e novas exigências tributárias. Durante o podcast Conexão Agro, gravado na feira Tecnoshow em Rio Verde (GO), os especialistas Leandro Amaral e Leonardo Amaral alertaram que o cenário atual é tão crítico que se assemelha a um “7 a 1” contra o produtor rural.
A Crise em Números: Inadimplência e Queda nos Lucros O setor amarga um aumento expressivo na inadimplência e no endividamento. Segundo dados mencionados na entrevista, o índice de inadimplência no crédito rural (pessoa física) atingiu 7.4%, o dobro do ano anterior, acompanhado por taxas de juros altíssimas. Consequentemente, o número de pedidos de recuperação judicial disparou, chegando a aproximadamente 1.990 casos em 2025, um aumento de quase 56,4% em relação a 2024.
A raiz desse problema financeiro está na drástica redução das margens de lucro do produtor. Em 2021, um produtor que colhia 60 sacas por hectare gastava cerca de 33 sacas para cobrir seus custos, garantindo uma folga de 27 sacas. Hoje, para a mesma produção, o custo saltou para 55 sacas, restando apenas cinco de lucro — um cenário que se torna negativo para quem precisa pagar arrendamento de terras.
Burocracia Ambiental e Reforma Tributária Além do sufoco financeiro, os produtores lidam com novos gargalos burocráticos. A recente exigência do sistema PRODES tem travado a liberação de crédito rural, pois o monitoramento por satélite muitas vezes não diferencia o desmatamento legal do ilegal, forçando o produtor a arcar com custos extras de defesa jurídica para provar sua inocência e destravar o financiamento.
Outro ponto de atenção urgente é a Reforma Tributária, que exigirá o fim da “informalidade fiscal” no campo. Leonardo Amaral alerta que a mudança não trará apenas aumento na carga de impostos, mas uma alteração profunda no modelo de cobrança. Produtores desorganizados que não profissionalizarem sua gestão financeira e tributária correm o risco de inviabilizar seus negócios, tornando 2026 um ano de “teste” para a adequação aos novos padrões.
O Impacto na Saúde Mental A forte pressão financeira e os riscos imprevisíveis da atividade (como o clima e o preço das commodities) têm gerado um impacto alarmante na saúde mental no campo, um tema que inclusive foi destaque na Tecnoshow com a presença do psiquiatra Augusto Cury. O peso de carregar dívidas em silêncio, motivado pelo medo de perder o patrimônio familiar de gerações e pela vergonha, tem levado a quadros graves de depressão e até ao aumento do número de suicídios entre os produtores. Leandro Amaral reforça o apelo para que os empresários do campo não tenham vergonha e busquem auxílio antes que a situação chegue a um ponto sem saída.
O Que Fazer? Para sobreviver a este momento turbulento, a principal recomendação dos especialistas é realizar um diagnóstico profundo do negócio, comparado a um “exame de sangue” financeiro. É preciso ter controle exato dos custos operacionais, juros e depreciação para não mascarar os prejuízos. No aspecto institucional, iniciativas como a criação de um comitê jurídico pelo Sindicato Rural de Rio Verde surgem como uma importante linha de defesa coletiva, unindo profissionais para monitorar riscos e defender os direitos da classe perante mudanças arbitrárias.
Para o futuro, a perspectiva indica que o produtor deve dar “um passo para trás”, evitando novos investimentos agressivos e focando em arrumar a casa. Mais do que nunca, a profissionalização dentro e fora da porteira não é um diferencial, mas a única garantia de sobrevivência.
Veja a entrevista completa abaixo: